Mulheres da Amazônia seguem em luta contra a violência e por justiça

A celebração do Dia Internacional das Mulheres na Amazônia foi marcada por mobilizações, resistência e esperança. Em muitas comunidades, paróquias, municípios e capitais da região, mulheres saíram às ruas para afirmar sua presença na sociedade e denunciar as diversas formas de violência que ainda marcam a vida das mulheres nos territórios.

Para a professora Márcia Maria, que acompanha os processos de organização das mulheres na região, o 8 de março é um momento de visibilidade, mas também de denúncia.

“Em diversas comunidades da Amazônia, as mulheres foram às ruas para pedir justiça, para dizer que não querem mais ser espancadas, estupradas ou assassinadas. É um grito coletivo contra todas as formas de violência que as mulheres sofrem no território todos os dias”, afirma.

Ela destaca que essa realidade atinge mulheres de diferentes povos e culturas da Amazônia. “Falamos de mulheres indígenas, ribeirinhas, camponesas, mulheres negras e urbanas. Mulheres de todas as cores e identidades que enfrentam, diariamente, diferentes formas de violência.”

Segundo Márcia, diante dessa realidade, a organização coletiva tem sido um caminho fundamental de resistência. “Nós mulheres já aprendemos que não é possível travar lutas isoladas. Precisamos nos reconhecer como um coletivo, como mulheres na diversidade, unidas na defesa da vida e da dignidade.”

Nesse processo de articulação, ela destaca o papel de iniciativas como o coletivo Cirandeiras, ligado à Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), e também os espaços de encontro e mobilização das Mulheres Amazônicas, que buscam fortalecer a reflexão, a organização e a resistência das mulheres nos territórios.

Outro espaço importante é o Fórum das Mulheres do Baixo Amazonas, que chega à sua quinta edição como um espaço de articulação e fortalecimento da luta das mulheres da região.

“O fórum tem se consolidado como um espaço de organização e debate. É um lugar onde as mulheres indígenas, ribeirinhas e camponesas conseguem trazer suas realidades, suas lutas e suas propostas”, explica.

Para a professora, a diversidade das mulheres amazônicas é uma das maiores riquezas desse processo de organização. “Essa diversidade não é um problema. Pelo contrário, ela é uma grande força. Mulheres de diferentes povos, culturas e territórios se somam numa luta comum pela vida e pelos direitos.”

Ela lembra ainda que a Amazônia enfrenta índices alarmantes de violência contra mulheres e crianças, o que torna ainda mais urgente fortalecer redes de apoio e organização. “Nós vivemos em uma região que ainda registra altos índices de violência contra as mulheres. Por isso, nossa organização e nossa resistência são tão necessárias.”

Ao final de sua mensagem para o Dia Internacional das Mulheres, Márcia Maria reafirma a força das mulheres amazônicas e a importância de seguir caminhando juntas.

“Somos mulheres de luta, mulheres da resistência. E seguimos caminhando juntas, fortalecendo nossas organizações, nossas redes e nossa esperança de uma Amazônia onde as mulheres possam viver com dignidade, respeito e sem violência.”

Márcia recorda a força simbólica da cultura amazônica presente na toada “Rosas Vermelhas”, do Boi-Bumbá Garantido, que evoca a coragem, a dignidade e a esperança das mulheres da Amazônia.

A canção fala de mulheres que seguem lutando pela vida e pela transformação da sociedade:

“Vou tomar banho de cheiro,
com aroma de emancipação,
o perfume das rosas vermelhas,
mulheres guerreiras da minha nação.”

Na letra, aparecem os desejos de tantas mulheres — mães, irmãs e filhas — que sonham com o fim da violência, do machismo e da desigualdade.

Assim como na canção, as mulheres da Amazônia seguem se reconhecendo como rosas caboclas, negras, indígenas e ribeirinhas, mulheres diversas que florescem mesmo em meio às dificuldades e continuam a construir caminhos de resistência e transformação.

Porque, como lembra a toada, são “rosas vermelhas, guerreiras, do povo da Amazônia”, que seguem lutando para que todas as mulheres possam viver com dignidade, respeito e sem violência.

Rosas Vermelhas
Enéas Dias, Marcos Moura e João Kennedy
(Toada do Boi Garantido, 2019)

Vou tomar banho de cheiro,
com aroma de emancipação,
o perfume das Rosas Vermelhas,
mulheres guerreiras da minha nação.
Provedoras da esperança,
cuidadoras da transformação,
rosa-choque misturado,
ao vermelho do meu coração.

Escute com muita atenção,
outros desejos de Catirina,
são os mesmos de minha mãe,
minha irmã e minha filha,
pelo fim da violência,
do machismo e da homofobia,
são desejos de Dandaras,
Marielles e Marias

Venham sempre com as outras,
que os outros vão respeitar,
rosas do jardim do meu Brasil,
Rosas Vermelhas do meu boi-bumbá.
Vou cantar essa vontade,
com a força da arte que luta,
pela igualdade de gênero,
que é necessária, urgente e justa.

Rosas caboclas, negras rosas,
rosas das matas, índias rosas,
rosas vermelhas, guerreiras,
do povo Garantido.