“A Igreja agradece a todas as mulheres: às mães, às irmãs, às esposas; às mulheres consagradas; às mulheres que trabalham profissionalmente; às mulheres que sofrem e às que se dedicam aos outros com amor”.
Com essas palavras de São João Paulo II na Carta às Mulheres, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) une-se, neste 8 de março, ao reconhecimento da presença e da contribuição insubstituível das mulheres na vida da sociedade, da família e da Igreja.
A Sagrada Escritura apresenta mulheres cujas histórias, narradas desde o livro do Gênesis, revelam a superação de obstáculos, a confiança inabalável em Deus e um protagonismo decisivo na história da salvação. Inspirados por essa herança de fé, fazemos ecoar o canto profético de Maria, a Mãe de Jesus:
“Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou” (Lc 1,52).
A Igreja reconhece na mulher uma dignidade singular e insubstituível. Como recordou São João Paulo II, “a dignidade da mulher e a sua vocação encontram a sua medida definitiva na união com Deus” (Mulieris Dignitatem, 5). Por isso, a presença feminina na sociedade e na Igreja não é apenas necessária, mas indispensável para que a humanidade reflita plenamente o projeto de Deus.
Contudo, não podemos permanecer em silêncio diante das estruturas de pecado que ferem a vida e a dignidade de tantas filhas de Deus. Onde a vida é agredida, o Evangelho nos convoca a clamar por justiça e a agir com solidariedade.
Os níveis de violência contra as mulheres em nossa pátria são inadmissíveis. Em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil. Cada número representa uma vida interrompida, uma família dilacerada e uma ferida aberta no tecido social. Como discípulos de Jesus Cristo, não podemos aceitar que a cultura da violência e do desrespeito prevaleça sobre o valor sagrado da vida.
Esse cenário revela chagas ainda mais profundas. É um escândalo que 63,6% dessas vítimas sejam mulheres negras, evidenciando como racismo e misoginia se entrelaçam para ferir as mais vulneráveis. Causa-nos dor reconhecer que o ambiente familiar — que deveria ser espaço de cuidado e proteção — tornou-se, para muitas mulheres, cenário de violência e morte. Quase metade das mulheres brasileiras não se sente tratada com respeito em casa, no trabalho ou nas ruas. É urgente enfrentar todas as formas de violência — física, psicológica, patrimonial e sexual — combatendo as raízes culturais que sustentam tais práticas. Destacamos também a triste realidade do aumento dos feminicídios de adolescentes, bem como a vulnerabilidade enfrentada por mulheres indígenas.
No mundo do trabalho há uma persistente desigualdade, marcada pela disparidade salarial e pela limitação do acesso das mulheres aos espaços de decisão. Como recordava São João Paulo II em sua Carta às Mulheres, “é urgente alcançar em toda parte a efetiva igualdade dos direitos da pessoa e, portanto, também a igualdade de salário em relação ao trabalho realizado, a tutela da trabalhadora-mãe e uma justa progressão na carreira” (Carta às Mulheres, 1995).
No ambiente digital vemos a difusão de correntes ideológicas que alimentam o desprezo e a hostilidade contra as mulheres, promovendo discursos de ódio e formas renovadas de violência. É necessário fortalecer a responsabilidade social, a vigilância ética e a promoção de uma cultura digital que respeite a dignidade de toda pessoa humana, para que as redes sejam espaços de encontro e não de agressão.
Diante desse quadro, urge fortalecer a consciência social e promover redes de apoio que acolham, protejam e acompanhem as mulheres em situação de vulnerabilidade. Como Igreja, somos chamados a ser presença de escuta, solidariedade e defesa da vida.
Manifestamos também nossa sincera gratidão às inúmeras mulheres que, em nossas comunidades eclesiais espalhadas por todo o Brasil, oferecem generosamente seu tempo, sua fé e seus dons no serviço ao Evangelho. Na catequese, na animação litúrgica, na missão, nas pastorais, nos movimentos e em tantas outras frentes de serviço, elas sustentam a vida de nossas comunidades e tornam presente o cuidado da Igreja junto ao povo de Deus. Com dedicação silenciosa e perseverante, muitas vezes marcada pelo espírito de serviço e pela atenção aos mais frágeis, essas mulheres ajudam a manter viva a fé em nossas comunidades e contribuem decisivamente para que a Igreja seja cada vez mais casa de acolhida, fraternidade e esperança.
Que a Virgem Maria, “mulher forte” (cf. Marialis Cultus, 37), nos ensine a reconhecer, valorizar e respeitar sempre a dignidade de cada mulher. Confiamos também à intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Mãe Morena do povo brasileiro, todas as mulheres e todos aqueles que se empenham na construção de uma sociedade que escolhe a vida, a justiça e a paz.
Dom Jaime Cardeal Spengler
Arcebispo da Arquidiocese de Porto Alegre – RS
Presidente da CNBB
Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo da Arquidiocese de Goiânia – GO
1º Vice-Presidente da CNBB
Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa
Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife – PE
2º Vice-Presidente da CNBB
Dom Ricardo Hoepers
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Brasília – DF
Secretário-Geral da CNBB

