O ressoar do InterNorte 2025: vozes da Amazônia em defesa da vida e da Casa Comum

Encontro em Manaus reuniu agentes Cáritas, lideranças comunitárias e religiosas para partilha de experiências e preparação para a COP30.

De 19 a 24 de agosto, Manaus (AM) foi palco do InterNorte 2025, encontro que reuniu mais de 60 representantes das articulações e regionais da Cáritas no Norte. Com o tema “Jeito de Ser Cáritas na Amazônia: Cuidar, Conviver, Defender, Respeitar e Celebrar”, o evento trouxe à tona a força da partilha, o aprendizado entre comunidades e a reflexão sobre os desafios sociais, ambientais e climáticos da região.

O encontro teve como foco a troca de experiências, a formação em incidência política e a preparação para a COP30, unindo lideranças comunitárias, agentes da Cáritas e representantes da Igreja Católica. Além do Cardeal Dom Leonardo Steiner, estiveram presentes Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, bispo auxiliar de Manaus; Dom Altevir da Silva, bispo de Tefé (AM); padre Tiago Mendes, pároco da Paróquia São Francisco e São Sebastião (Prelazia de Lábrea); e padre Dorival Nascimento, vigário geral da Diocese de Parintins e pároco da Catedral Nossa Senhora do Carmo.

O InterNorte 2025 da Cáritas Brasileira também contou com a presença de religiosas que atuam diretamente na defesa da vida e dos direitos na Amazônia, como a irmã Maria Aparecida da Silva (Foz de Tapauá), irmã Selita Lorenski (Tefé) e irmã Rose Bertoldo, Secretária Executiva do Regional Norte 1 da CNBB, cujas trajetórias são marcadas pelo compromisso com a justiça social e a proteção das mulheres, crianças e comunidades vulnerabilizadas.

Ao longo da semana, os participantes compartilharam vivências do cotidiano amazônico, discutiram estratégias de defesa dos modos de vida tradicionais e reforçaram o compromisso da rede com a promoção da dignidade, da autonomia e da justiça socioambiental. 

Combinando momentos de formação, espiritualidade, planejamento conjunto e visitas a experiências locais de resistência, o InterNorte 2025 consolidou-se como um espaço de construção coletiva e fortalecimento da presença da Cáritas na região.

A voz dos povos e comunidades tradicionais

A agricultora familiar e ribeirinha Maria do Socorro Rodrigues da Silva, voluntária da Cáritas Itacoatiara (AM), trouxe ao encontro a perspectiva das comunidades tradicionais e os desafios enfrentados no cotidiano da Amazônia.

“Esse intercâmbio traz um vasto conhecimento pra gente. Dentro do mesmo estado há uma diversidade enorme, e compartilhar essas realidades nos fortalece”, disse. Para ela, os aprendizados do InterNorte ajudam a pensar em novas perspectivas para o futuro. “O conhecimento é fundamental para desenvolver as atividades e também para cobrar do poder público que assuma sua parte. Os vereadores e gestores precisam apoiar projetos que colaborem com o nosso trabalho”, acrescenta.

Socorro destaca ainda que o trabalho da Cáritas vai muito além da ajuda emergencial. “Não é só distribuir cesta básica, mas também oferecer formações para que as pessoas busquem caminhos de autonomia, consigam manter sua dignidade e sua soberania”, explica.

Ela também fez um alerta sobre a falta de respeito aos modos de vida tradicionais. “Somos nós quem estamos no sol, na chuva, no sereno, construindo esse trabalho, mas muitas vezes não temos o devido respeito. Existem organizações que captam recursos em nosso nome, mas não reconhecem quem está na linha de frente dessa luta. Muitos projetos são criados com outros interesses, sem considerar quem realmente vive e cuida da terra, das águas e das florestas”, critica.

O olhar do Cardeal da Amazônia

A participação do Cardeal Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), trouxe uma reflexão profunda sobre a missão da Cáritas como expressão viva do Evangelho.

“Cáritas não é apenas uma ação caritativa, é muito mais: é um modo de ser do Evangelho, sempre junto aos mais necessitados. Jesus vê e transforma a vida dos desprezados e é isso que buscamos visibilizar em nossas ações”, afirma.

Dom Leonardo também chama atenção para os desafios globais e regionais diante da crise climática e ressalta a importância da participação da Igreja na COP30. “É papel da Igreja levar a discussão das mudanças climáticas até as pessoas, antes, durante e depois da COP. Há necessidade de uma conversão ecológica profunda. Nossa Amazônia está sendo devastada em nome de um falso desenvolvimento, e cabe a nós reafirmar o direito dos povos a escolherem seu modo de vida”, destaca.

Caminhada coletiva rumo à COP30

Mesa ‘COP 30 e Cúpula dos Povos: o que é e como está sendo proposto pela Cáritas (Documentos de posições)’, com a assessora regional Keila Giffoni nacional e o assessor nacional Lucas D’Ávila.

Para Keila Souza Marães Giffoni, da Coordenação Colegiada da Cáritas Brasileira Regional Norte 2 (Pará e Amapá), o InterNorte 2025 fortaleceu a caminhada conjunta da rede na Amazônia.

“Nós estamos aqui em Manaus, reunidos para olhar nossas ações, nossos aprendizados, mas também os desafios e aquilo que almejamos para o próximo período. Estamos nos preparando para participar da COP30, tanto nos espaços oficiais quanto nos espaços autônomos, como a Cúpula dos Povos”, explica.

Keila ressalta que a Cáritas é uma rede que caminha com os territórios e comunidades, construindo respostas a partir da realidade local. “Nada sobre nós, sem nós. É assim que queremos chegar à COP30: somando a voz das comunidades e levando suas soluções para o debate global sobre mudanças climáticas”, reforça.

Territórios de cuidado e resistência

Horta urbana da Cáritas Paroquial São Francisco de Assis

A programação do InterNorte 2025 também incluiu visitas a iniciativas locais em Manaus que traduzem, na prática, a força da solidariedade e da organização comunitária. Esses espaços mostram como a Cáritas e seus parceiros caminham lado a lado com as comunidades, fortalecendo alternativas sustentáveis, de acolhida e de promoção da vida.

Entre as experiências visitadas estiveram:

Cáritas Paroquial São Francisco de Assis (Arquidiocese de Manaus), com iniciativas como a feira de Economia Popular Solidária, horta urbana com compostagem, farmácia viva e doação de mudas, yoga cristã, reciclagem de garrafas PET para produção de vassouras e café solidário, em parceria com CETAM, SENAC, SEBRAE e a comunidade de forma geral;

Centro de Ciência e Saberes Tradicionais Lua Verde (Yatsi Ikira), espaço cultural indígena Kokama apoiado pela Cáritas Arquidiocesana de Manaus, em parceria com Misereor e Cáritas Alemanha;

Centro de Acolhida da População em Situação de Rua, referência no cuidado e apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade extrema.

Centro de Ciência e Saberes Tradicionais Lua Verde (Yatsi Ikira)

Centro de Acolhida da População em Situação de Rua

Um chamado à incidência e à esperança

O ressoar do InterNorte 2025 ecoa para além de Manaus. As vozes reunidas durante o encontro reafirmam a missão da Cáritas de cuidar, conviver, defender, respeitar e celebrar a vida na Amazônia. A partir da partilha de experiências e da incidência política, a rede fortalece o compromisso de ser presença solidária nos territórios e de contribuir com esperança e coragem para a construção de outro futuro possível.